| Os
brasileiros apareceram, mais uma vez, entre os piores
estudantes do mundo nos últimos rankings de ensino
da OCDE. O que o senhor descobriu ao analisar as provas
desses estudantes?
Elas
não deixam dúvida quanto ao tipo de aluno que o Brasil
forma hoje em escolas públicas e particulares. São
estudantes que demonstram certa habilidade para decorar
a matéria, mas se paralisam quando precisam estabelecer
qualquer relação entre o que aprenderam na sala de
aula e o mundo real. Esse é um diagnóstico grave.
Em um momento em que se valoriza a capacidade de análise
e síntese, os brasileiros são ensinados na escola
a reproduzir conteúdos quilométricos sem muita utilidade
prática. Enquanto o Brasil foca no irrelevante, os
países que oferecem bom ensino já entenderam que uma
sociedade moderna precisa contar com pessoas de mente
mais flexível. Elas devem ser capazes de raciocinar
sobre questões das quais jamais ouviram falar ? no
exato instante em que se apresentam.
Depois
de mais de uma década de avaliações, o senhor vê avanços
no caso brasileiro?
Os
resultados, apesar de ruins, são sempre um pouco melhores
em relação aos anteriores. Além disso, o Brasil passou
a ter chance de avançar no momento em que começou
a mapear os problemas de maneira objetiva ? e não
mais com base na intuição de alguns governantes. Isso
é básico. Não dá para pensar em melhorar algo que
não foi sequer dimensionado. Daí a importância da
comparação internacional. Ao olhar os rankings, pais,
educadores e autoridades podem começar a fazer comparações
e constatar o óbvio: suas escolas estão bem atrás
das dos países da OCDE.
O
senhor costuma ser procurado por brasileiros insatisfeitos
com os resultados?
Isso
acontece. Ao saberem do fiasco nos últimos rankings,
alguns políticos e especialistas de mentalidade mais
atrasada me ligaram revoltados. Diziam: "Vocês
estão exigindo dos alunos que falem sobre situações
distantes demais da realidade deles. É injusto".
A miopia dessa gente a impede de enxergar que o fato
de estudantes chineses ou americanos terem a resposta
para tais questões não revela apenas um despreparo
dos brasileiros, mas mostra também como eles estão
em desvantagem na competição com os demais. Não são,
no entanto, os únicos a reagir mal.
Quem
mais reclama?
Basicamente,
todo mundo que não aparece no topo. Basta sair um
ranking novo que meu telefone não pára de tocar. Apenas
há pouco tempo, as autoridades passaram a usar esse
medidor tão eficaz para aferir as próprias deficiências
e apontar saídas com base em experiências que dão
certo em outros países. Apesar de uma relativa abertura
para observar o que se passa em escolas de outros
cantos do mundo, espanta como a educação ainda é uma
área tão pouco globalizada em sociedades tão modernas.
Por
que outros setores são mais globalizados do que a
educação?
Ao
ficarem circunscritos às suas fronteiras e resistirem
à idéia de aprender com a experiência alheia, os países
estão movidos por uma espécie de orgulho patriótico
sem sentido. O pensamento geral é algo como: "Cada
um sabe o que é melhor para suas salas de aula".
Essa mesma lógica do isolamento intelectual se repete
entre as escolas e, mais surpreendente ainda, entre
professores de um mesmo colégio. Pergunte a um deles
o que o colega da sala ao lado está fazendo para resolver
um problema comum a ambos e ouvirá como resposta:
"Não tenho a mais vaga idéia". Nesse cenário,
a China é uma ótima exceção e já começa a colher os
efeitos positivos.
O
que há de extraordinário no exemplo chinês?
Os
chineses não demonstram constrangimento em copiar
o que funciona nos outros países. Ao contrário: eles
são movidos por isso. Em uma visita à China, tive
um encontro com o ministro da Educação e ele me surpreendeu
ao revelar profundo conhecimento sobre a realidade
de algumas das melhores escolas do mundo, como as
coreanas e finlandesas. Trata-se de algo raríssimo
de ver em qualquer outro país. A China, evidentemente,
ainda tem muito que melhorar na educação ? mas avança
em ritmo veloz. Um novo estudo da OCDE traz um dado
espantoso. Em 2015, haverá duas vezes mais chineses
com diploma universitário do que na Europa e nos Estados
Unidos juntos. Tudo indica também que logo esses estudantes
terão acesso, em seu próprio país, a algumas das melhores
universidades do mundo.
Por
que a China e outros países em desenvolvimento estão
à frente do Brasil?
Antes
de tudo, por um fator que pode soar abstrato e até
demagógico, mas é bastante concreto: são países que
decidiram colocar a educação em primeiro lugar. Isso
se traduz em medidas bem práticas implantadas por
alguns deles. Uma das mais eficazes diz respeito à
criação de incentivos para tornar a carreira de professor
atraente, de modo que passasse a ser escolhida pelos
estudantes mais talentosos. Essa é uma realidade bem
longínqua para muitos dos países em desenvolvimento,
como o Brasil.
O
fato de o salário do professor nesses países ser maior
é decisivo para atrair os melhores alunos para as
faculdades de pedagogia?
Diria
que esse é apenas um dos fatores ? mas não o principal.
O que faz estudantes brilhantes optar pela profissão
de professor é, muito mais do que um salário acima
da média, um ambiente em que eles têm o talento reconhecido
e a capacidade intelectual estimulada. Além disso,
são dadas a eles várias opções de carreira. Os professores
podem se tornar diretores, como em qualquer outro
país, mas também almejar diferentes funções longe
da burocracia de uma escola: alguns atuam como uma
espécie de consultor de ensino, com a tarefa de treinar
os menos experientes, outros recebem a missão de desenvolver
e adaptar currículos. O fundamental para eles é saber
que terão mais de uma boa perspectiva nos próximos
vinte anos.
Em
geral, esses cargos que o senhor citou não existem
nas escolas brasileiras...
São
funções típicas de países voltados para a idéia de
proporcionar ambientes favoráveis ao aprendizado.
Essa obsessão se vê o tempo todo no dia-a-dia de tais
países. Durante uma viagem à Coréia do Sul, presenciei
uma cena emblemática da preocupação das pessoas com
o que se passa na sala de aula. Enquanto os estudantes
faziam a prova para o ingresso na universidade, as
principais avenidas de Seul ficaram fechadas para
o tráfego. Quando perguntei ao funcionário do Ministério
da Educação a razão daquilo, ele respondeu com naturalidade:
"Estudo exige silêncio. Que os motoristas esperem".
A
Coréia do Sul investe 7% do PIB na educação e o Brasil
5%. É preciso aumentar o orçamento brasileiro?
Não
necessariamente. É evidente que, na comparação com
outros países, o Brasil não só investe pouco como,
ainda, aplica a maior parte do dinheiro no pagamento
de salários de professores. As pesquisas chamam atenção,
no entanto, para um aspecto menos visível e mais relevante
do problema: as verbas disponíveis são muito mal gastas.
Com o atual orçamento, os brasileiros poderiam estar
num patamar melhor.
Em
sua opinião, como o Brasil faria melhor uso do dinheiro
disponível?
Reduzindo
as altas taxas de repetência, por exemplo. Os estudos
mostram que um aluno reprovado se torna 20?000 dólares
mais caro para o estado. Dar a esses estudantes reforço
na escola, de modo a evitar a reprovação, sairia bem
mais barato. Trata-se de um claro sinal de ineficiência
na gestão do dinheiro. Nessa velha ladainha sobre
o aumento de verbas para a educação, as pessoas deixam
ainda de lado outra questão bastante básica: de nada
adianta aumentar o orçamento e continuar a investir
num sistema velho e inoperante. É preciso lembrar,
no entanto, que a má aplicação das verbas públicas
no ensino não é uma exclusividade brasileira.
Por
que o senhor diz isso?
A
educação é um setor com índices de produtividade declinantes
no mundo todo: os custos só aumentam, ao passo que
o ritmo de avanço na sala de aula é lento demais.
Justamente o inverso do que ocorre com as grandes
empresas privadas, que conseguem cortar gastos e produzir
mais e melhor. Não recebo aplausos quando digo isso
em minhas palestras. Tampouco faço sucesso ao afirmar
que poucos setores são tão atrasados quanto a educação.
A
que o senhor atribui esse atraso?
Os
professores ainda conduzem suas aulas guiados muito
mais pelas próprias ideologias do que por conhecimento
científico. Na prática, eles escolhem seguir linhas
pedagógicas motivados por nada além de crenças pessoais
e deixam de enxergar aquilo que as pesquisas apontam
como verdadeiramente eficaz. Fico perplexo com o fato
de a neurociência, área que já permite observar o
cérebro diante de diferentes desafios intelectuais,
ser tão ignorada pelos educadores. Pior ainda: os
educadores são os maiores inimigos dessa ciência.
Eles perdem um tempo precioso ao repudiá-la.
Como
a neurociência pode ajudar na escola?
Caso
consultassem os neurocientistas, os pedagogos já saberiam,
por exemplo, algo bem básico sobre o aprendizado de
uma língua estrangeira: ele demanda uma imersão no
idioma ? impossível de ser alcançada com aulas esporádicas
ou curtas demais, como é tão freqüente nas escolas.
Essas aulas têm efeito próximo a zero, como já foi
comprovado por meio da visualização da atividade cerebral.
E o que fazem as escolas diante disso? Nada. A educação
funciona hoje como a medicina 150 anos atrás.
Por
que essa comparação?
Os
médicos trabalhavam no século XIX como um professor
de hoje: solitários e movidos pela intuição. Tinham
pouca clareza sobre a relação de causa e efeito entre
os fenômenos sobre os quais se debruçavam. Numa visita
a um hospital moderno, essas imagens do passado remetem
à Idade da Pedra. Profissionais de diferentes currículos
compõem equipes multidisciplinares, amparam-se em
novas tecnologias e trocam informações o tempo todo.
Se os Estados Unidos chegam a uma conclusão de relevo
científico, logo ela é aplicada no Japão. Trata-se
de um ambiente em permanente mutação. Nada que faça
lembrar o que se passa em boa parte das escolas.
Por
que elas são tão antiquadas?
A
maioria das escolas ficou congelada no tempo desde
o século XIX. Até hoje, elas aplicam conceitos idênticos
aos daqueles colégios concebidos para tornar as pessoas
compatíveis com a era industrial. Um de seus pilares
é a divisão do conhecimento por áreas estanques e
incomunicáveis. O outro é o treinamento para a execução
de tarefas repetitivas. Enquanto focam demais em idéias
do passado, as escolas deixam de mirar uma questão-chave
e bem mais atual: o fundamental é que as pessoas aprendam
a aplicar esse conhecimento em novas e avançadas áreas
? e que não apenas o tenham armazenado. Alguns países
já começam a entender isso. Os rankings da OCDE mostram
que o Brasil ainda está um passo atrás. |