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AGES 35 anos: um instrumento de cidadania

A pacata Paripiranga, cidade de menos de 30 mil habitantes, encravada no nordeste da Bahia, a menos de dois quilômetros da fronteira sergipana, adormecia no tempo, com ínfimas lembranças dos tempos áureos do café, nos filhos ilustres expoentes da política, da saúde e do judiciário, afora isso, uma viva alma jamais poderia imaginar ser aqui o berço de um projeto audacioso, inovador e a frente de seu tempo, os empreendimentos AGES.

Em 1983, período marcado por uma estiagem prolongada, crise econômica e um cenário nada animador para se pensar em investimentos, ousei criar uma escola, com uma sala de aula de ensino fundamental. O espaço acanhado ganhou mobiliário, as providências burocráticas foram observadas e, aberta as matrículas, a surpresa, somente cinco pretendentes. A decisão seguinte ilustra a perspicácia inovadora e empreendedora, ao ir à periferia da cidade e convidar cinco famílias a acreditarem no projeto, levando seus filhos a se matricularem como bolsistas integrais e, dessa atitude singela, foi se construindo, no imaginário local, a noção de aprendizagem com qualidade, com introdução de novas metodologias e, em vários momentos do ano, a escola passou a ocupar a cena pública para ampliar, ainda mais, o espaço de aprendizagem e cidadania.

Os anos passaram, a sala de aula cedeu espaço a um ambicioso projeto de escola com diversos ambientes, salas amplas, arejadas e formação continuada de seu corpo docente e de técnicos. Assim, em 2000, iniciou-se a proposta de uma faculdade, com o firme proposito de ofertar um ensino de qualidade, com o intuito de assegurar à população de mais de 60 municípios das regiões nordeste da Bahia e centro-sul de Sergipe um instrumento de transformação social, ou seja, a educação como fomento de inserção a uma nova sociedade, agora mais conectada com um mundo globalizado, em que a formação tradicional não iria mais responder ao mercado de trabalho.

O processo de autorização gerou muitas incertezas e apreensões. Primeiro, pela ousadia em propor a oferta de curso superior no interior do estado e, mais ainda, em um município distante dos grandes centros de formação universitária, ou ainda, a sede municipal comportar menos de 10 mil habitantes, com comércio incipiente, serviço reduzido de hospedaria e mesmo fornecimento de gêneros alimentícios básicos, ou seja, alguns deles disponíveis somente na feira livre, as sextas-feiras. Segundo, a proposta pedagógica e escolha dos primeiros docentes e, por fim, a construção de argumentações para a equipe do Ministério da Educação sobre a viabilidade da proposta.

A autorização para o funcionamento foi a chave para as conquistas posteriores, mas em nada supera a luta cotidiana para oferecer informações seguras à população sobre a AGES e os cursos e, em pouco tempo, as desconfianças, os estereótipos quanto às fragilidades foram cedendo espaço quando os eventos científicos e sociais passaram a complementar o esforço de capacitação permanente de seu corpo docente e de técnicos, cuidado com o acompanhamento pedagógico e isso passou a ser visto como diferencial, pois a aprendizagem não se traduzia mais em simples obtenção de nota, ao contrário, o importante era também verificar o planejamento de cada disciplina, a interface com outros saberes e assim surgiram experiências inovadoras como a prova interdisciplinar, levando docentes e discentes a enfrentarem seus maiores fantasmas, a desconstrução de pilares sedimentados da aprendizagem compartimentalizada em caixinhas por disciplinas. E, soma-se ainda a todo esse processo um currículo flexível operado por competências e habilidades.

A AGES nasceu desafiando o modelo hegemônico de ensino superior. Inicialmente, isso ocorreu através da proposta apresentada por um educador com experiência em educação básica. Segundo, por pleitear a sede em um município de menos de 30 mil habitantes, com vocação agrícola. Mas, foi nesse ambiente, nada acolhedor para uma proposta desse tipo, onde fluíram as energias para se pensar estratégias de desenvolvimento das regiões supracitadas, isto é, permitir a formação de qualidade como saída para um histórico de exclusão e mazelas sociais.

As inovações são de toda ordem, desde administrativas, pedagógicas, sociais, enfim, ver-se o desenvolvimento, adaptações e propostas singulares em todos os setores da AGES, desde o vestibular, com a introdução dos agentes multiplicadores, responsáveis por contatar diretamente os futuros ageanos, o convite de egressos para atuarem na instituição, os programas de nivelamento, aqui denominados carinhosamente de acolhimento, para ajudar a todos estarem no mesmo nível de debate e interação com o saber, a compra contínua de livros e periódicos, a construção de laboratórios, auditórios e espaços para criar condições adequadas de convivência no campus, a preocupação com o meio ambiente e a sustentabilidade através do cuidado com o Parque Jardim das Palmeiras, ou mesmo a arborização de todo o campus, ou ainda, na busca constante por oferecer todos os cursos necessários à sua área de abrangência.

O projeto não desprezou ou desconsiderou a população de baixa renda ou com dificuldade momentânea para custear as despesas com mensalidades, ou mesmo deslocamento e permanência em Paripiranga. Assim, aderiu ao programa do Governo Federal (Prouni e Fies) e instituiu programas de ajuda para moradia e alimentação, fomento a bolsas e um ousado financiamento próprio, denominado de Pró-Vida e agora se acena com o PROER, para se aproximar, ainda mais, dos egressos, gestores e população em geral, de mais de 80 municípios, através da formação de consórcios para o desenvolvimento local.
O percurso pedagógico e gestão refletem a amplitude da visão empreendedora, moderna, e criativa do seu idealizador, quer nas suas andanças pelo mundo, em busca de compreensão das estratégias virtuosas, quer na construção de suas próprias propostas, especialmente aqui vale salientar a inclusão de projetos ousados de disciplinas, a exemplo de cultura universal e empreendedorismo, ambas com o firme proposito de despertar os ageanos para um conhecimento amplo dos fenômenos e, por outro lado, à necessidade de criar uma mente aberta ao empreendimento, quando se vislumbra, muito em breve, uma sociedade sem emprego, mas com amplas possibilidades de trabalho e renda.

É natural se pensar como se dá o processo de ensino por uma metodologia ativa, essencialmente ageana, aqui denominada de “Aula Estruturada AGES”, mas por trás se encontra o pensamento de Henry Wallon, Celestin Freinet, Jean Piaget, acompanhados de outros tantos devotados a pensarem na construção do saber em um mundo completo, a exemplo de Edgar Morin, Juan Enrique Díaz Bordenave e Philippe Perrenoud, sem esquecer o nosso mestre maior, Paulo Freire.
A universidade pensada pela AGES é aquela onde o saber deve ser aprendido pelos fenômenos, com a sala de aula aberta e dinâmica, com inquietações permanentes. É o espaço por excelência para se pensar a sociedade, seus dilemas, conflitos, soluções. Assim, os 35 anos da AGES simboliza a vitória de um sonho, mas a concretização de milhares de projetos de vida, agora cidadãos e plenos de possibilidades para crescer e se fortalecer em um ambiente global, plural e dinâmico.